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 O Ethos Vivendi e a Alma Coletiva do PT

“...Enquanto educador, reconhecer-se também como educando. Vale repetir: para que o PT assuma o seu papel de educador enquanto Partido, coerentemente com suas opções proclamadas, ele tem de assumir também o papel de educando das massas populares. A sua tarefa formadora, como partido de massas e não de quadros, se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre.”
(Paulo Freire)

As sábias palavras do mestre Paulo Freire, que vê “O Partido como Educador-Educando”, impressas no texto de abertura do caderno de publicação do Estatuto do PT, resumem o ethos vivendi do Partido dos Trabalhadores – um Partido nascido das aspirações de uma multidão formada por sonhadores e excluídos – além de revelar a sua alma coletiva (egrégora) de onde vem essa energia poderosa que na adversidade ele (o partido) se fortalece e se prepara melhor para os próximos embates.

Esse texto sintetiza o que, do meu ponto de vista, tem orientado o Partido dos Trabalhadores nestes 31 anos de sua existência, pois expressa que o PT não poderá existir com a imposição de receitas prontas e que ele não é estático e muito menos instrumento desta ou daquela figura. O PT se orienta e se dirige pela média das vontades e percepções do conjunto de seus constituintes. O PT não sou eu, não é LULA - mesmo com o tamanho de sua importância para o Partido e para o mundo - o PT é: como habitualmente dizemos, “ O PT Somos Todos Nós”.

Certa vez um trabalhador rural me disse, “no PT o maior é do tamanho do menor”, o que difere um do outro é o fato do ‘maior’ receber delegações maiores, isto é, suas obrigações são maiores, mas isso não o faz maior que menor, uma vez que os seus direitos são iguais. É por isso que  a sua forma de organização não permite que o PT esteja a serviço dessa ou daquela idéia, sem que antes ela seja discutida com o coletivo para que a maioria a compreenda e aprove sua defesa, assumindo juntos sua execução.

A expressão educador-educando vem dizer que os petistas não são meros receptores de propostas e idéias, pelo contrário, são antes de tudo codificadores, uma vez que escutam, falam, propõem, debatem e rebatem propostas. E é a partir desse diálogo e do aglomerado de propostas e idéias que emergem propostas melhores e idéias mais elaboradas. Logo, aquele que não consegue conviver ou respeitar esse modo ser do Partido, não conseguirá permanecer nele. O PT não nasceu para ser o dono da verdade e muito menos para aceitar idéias prontas e engessadas. Por isso, são realizadas inúmeras reuniões, assembléias, encontros e congressos, pois é assim que conseguimos construir as diretrizes que orientam e dirigem as ações, conferindo-lhes a unidade e a consistência nas posições definidas e encaminhadas pela direção.

E é isso que muitos confundem com assembleísmo, ou que o PT faz reuniões de mais. Essas pessoas, geralmente, são aquelas que chegaram ao PT já com certa expressividade e com concepções formadas e não compreendem a importância do ethos vivendi do PT – disposição para ouvir, diálogo e enfrentamento político, disputas de idéias e unidade de ação – e muitas vezes por se considerarem maiores, acreditam que não precisam das reuniões, das assembléias e dos encontros, ignorando os espaços nos quais a vida do Partido se inicia e de onde emanam as orientações que o norteiam.

Isso acontece por ignorância ou falta de compreensão da necessidade que o PT tem de aprender com o todo que o compõe e com aqueles aos quais se dispôs a representar. Mas, isso também acontece com aqueles que compreendem, mas que optam em não participarem, pois não querem se comprometer e nem dar conseqüências às decisões do Coletivo.

Por isso é necessário compreender  que , sendo o PT um partido de massa e não de quadros, “a sua tarefa formadora...se dá na interioridade das lutas populares, na intimidade dos movimentos sociais de onde ele veio, dos quais não pode afastar-se e com os quais deve aprender sempre.” Querer que o PT passe a ser um Partido de figurões, é querer tirar o que há de mais rico nessa experiência extraordinária de organização partidária: a sua alma coletiva composta pela sinergia entrelaçada das energias de milhares de militantes e milhões de simpatizantes que  orgulhosamente o defende todos os dias.

Por isso, pode-se afirmar que o PT não pertence aos seus dirigentes, nem mesmo pertence apenas aos seus filiados, o Partido dos Trabalhadores pertence a uma multidão de sonhadores que deposita toda a confiança nele: a expressão da realização de seus sonhos, anseios, desejos e necessidades.

Agora, após dois mandatos consecutivos na Presidência da República é preciso que percebamos que o momento no qual estamos vivendo em nossa vida partidária é muito perigoso, por que estando no governo federal somos tentados diariamente a nos afastar das nossas “opções proclamadas” e do nosso ethos vivendi, e, tal afastamento poderia corroer o sentimento de que o PT somos todos nós e, com isso, perderíamos nossa alma coletiva, que, por sua vez, se concretiza no espaço onde as opiniões de seus constituintes são ouvidas, debatidas e consideras, mesmo que essas opiniões não sejam acatadas, mas, só pelo fato de ter participado, todos se sentem comprometidos. O nosso diferencial é nossa alma e não podemos nos afastar dela.

Nesse período, em que vivemos um momento de reforma estatutária, precisamos ter a capacidade de compreender a dimensão e a responsabilidade que temos ao estar num governo bem sucedido por dois mandatos consecutivos e um terceiro em bom andamento, e não comprometer o futuro dessa ferramenta extraordinária –  o Partido  dos Trabalhadores  – que conseguiu levar a sociedade brasileira a superação de  muitos preconceitos: fazer de um operário o maior presidente de nossa história e, ainda, eleger pela primeira vez, uma mulher para sucedê-lo.

Mas é necessário que não percamos os ensinamentos do mestre Paulo Freire, pois continuam atuais e necessários para alimentarmos e fortalecermos a alma coletiva do nosso Partido, porque sem ela, o PT se degradará, tendo como fim o seu desaparecimento físico, passando a ser apenas uma mera  e efêmera experiência que produziu coisas extraordinária, mas  que embriagado pelo  exercício de governar se perdeu porque não teve a capacidade de perceber que era  importante manter o  seu ethos vivendi: capacidade de ouvir, disposição para muito diálogo e enfrentamento político, disputas de idéias na sua interioridade e no seio da sociedade  para conseguirmos a unidade de ação.

Mas, eu acredito que não seremos apenas uma bolha ou um traço na história porque como aprendiz e mestre haveremos de seguir caminhando, construindo o caminho rumo ao nosso OBJETIVO: a emancipação do povo brasileiro, que emancipado saberá planejar o seu futuro.


Donizeti Nogueira
Presidente Estadual do PT-TO

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