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 NADA SERÁ COMO ANTES (meu relato sobre as manifestações no Brasil e minha participação no Espírito Santo)

Somente na terça-feira de manhã, quando comecei a chorar no banho, é que eu acho que entendi o que está acontecendo no Brasil. Num primeiro momento, vi com preocupação a repressão e a criminalização aos movimentos sociais, mas também o tom das manifestações fez com que eu questionasse o peso e a legitimidade do movimento. O que me fez chorar? Acho que enfim eu estava lavando a minha arrogância.

Na noite da última segunda-feira (17), o ES pode ver com orgulho milhares de pessoas marcharem sob a 3ª ponte. O simbólico do que nos separa, do pedágio, do preço que se paga, do que é proibido ultrapassar, das barreiras invisíveis, virou o que nos une. Eu vinha reclamando da falta de organização, de pauta, de objetividade, não consegui gritar uma palavra de ordem junto com o restante porque tudo me parecia muito classe média, senso comum. Mas quando chegamos mais próximo a Vila Velha, e as luzes dos prédios começaram a piscar, acho que foi uma das coisas mais poéticas que já vivi.


Ora, qual o problema dos prédios serem da Praia da Costa? Qual o problema de ser um movimento de classe média (que de fato é)? Acaso vamos agora exigir comprovante de renda pra manifestação? Deslegitimar as manifestações por todo o Brasil por causa disso, não me parece muito democrático. 
Este é de fato um movimento popular, as pessoas estão lutando por causas populares. Há sim um ou outro oportunista, mas se os gritos são por passe livre, investimento em educação e saúde, responsabilidade com o dinheiro público, onerar o estado para garantir mais direitos, é uma manifestação por mais justiça social! E justiça social sempre foi uma bandeira de esquerda. Queremos ser uma democracia e não uma instituição financeira com praias!


É portanto nosso papel não deixar que nada seja como antes depois de tamanha mobilização. O que faremos agora que descobrimos que podemos atravessar a ponte todos os dias? É isso que devemos tentar responder.


“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.

PARA A ESQUERDA


Este não é o momento de disputar espaços. Vemos a todo o tempo uma galera que se acostumou à disputa pela disputa e ainda não entendeu como isso tudo cresceu sem a sua “organização”. Pura arrogância. Querer organizar o povo sem disputar idéias é algo que nos custou essa dúvida e este sentimento cínico. Devemos agora nos preocupar em disputar os RUMOS desse processo, que devem ser cada vez mais à esquerda.

A ADESÃO DA CLASSE MÉDIA E DA JUVENTUDE


As pessoas estão insatisfeitas e quem de nós não está? Querer julgar que a sua insatisfação é por um motivo mais justo que o do outro também é arrogante. Ora, pela primeira vez em algumas décadas, o povo está na rua em períodos que não são eleitorais. Pela primeira vez a política é o tema mais discutido em todos os lugares: dos butecos aos ônibus. Por idosos e adolescentes. Estes últimos então, devemos lembrar, são filhos do neoliberalismo e consequentemente do individualismo pregado por este sistema cruel. Trazer essa galera pra rua já motivo de comemoração. Negar isso a eles é um erro político e estratégico, uma vez que este talvez seja o primeiro contato de muitos ali com a política. E da forma mais pura. Pela base, pela conquista plena do poder popular. São jovens cansados de ler história e que querem agora escrever a própria história e a história de um Brasil mais justo. Isso é lindo.

AS MÍDIAS CONVENCIONAIS, SOCIAIS E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO


Estamos diante de novos acontecimentos pra comunicação. Na era dos memes, tudo é muito fluido e as consequências disso tudo ainda estão sendo analisadas. Mas alguns pontos merecem destaque, por mais que ainda não saibamos (eu não sei) explicá-los na sua heterogeneidade. Este foi um movimento que se não teve seu início nas mídias sociais, foi organizado, pensado e discutido nas mesmas. Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, são plataformas com as quais a juventude está acostumada e que de certa forma, pluralizam as informações e o acesso ao conteúdo diversificado. As próprias petições online, são uma forma de mostrar quantas causas existem e a quantidade de pessoas que se identificam com elas. É o que eu gosto de chamar de “cauda longa dos movimentos sociais” (eu só espero que as pessoas não se acostumem a achar que bastar abanar o rabinho rs ). Já a mídia convencional brasileira ou está confusa ou pensa que estamos em 1964. Já criticou, já mudou de lado, já não sabe de que lado está, mas uma coisa é certa: quer sair bem dessa. 
Acontece que o povo já cansou de ser massa de manobra de organizações como a Rede Globo, entre outras. Nas manifestações, sempre que tentaram filmar, tiveram que ouvir que “o povo não é bobo”. É muito bom ver que essa galera também deseja a democratização dos meios de comunicação.
Vejo também a quantidade de smartphones, câmeras semi ou profissionais e as pessoas parando para tirar fotos pra postar nas redes. Parecia pra mim que eles só queriam aparecer, espetacularizar, faziam caras e bocas, mas o que estamos vendo é a documentação, o registro a história, simultânea e com uma rapidez jamais vista. Só que à maneira dessa nova geração. Não seria justo ridicularizar isso. Realmente as máscaras do Guy Fawkes em alusão ao filme V de Vingança e ao grupo Anonymous, bem como os já manjados narizes de palhaço, caras pintadas, flores (faltaram as vassouras rs) me dão nos nervos. Mas a falta de criatividade não pode ser uma forma de minimizar tudo o que estão fazendo. 

PAUTA, LIDERANÇA E REPRESENTATIVIDADE


A “falta” de uma pauta foi muito cobrada pelas pessoas, mas principalmente pela mídia. Também o governo em todas as esferas disse que não havia como negociar, pela falta de pauta e de lideranças. Mal sabem eles que não se trata de falta de pauta, visto que as temos e muito. Aliás, muitas. O que essa gente ainda não entendeu é que sim, o movimento não tem liderança e nem deve ter. É descentralizado, mas é popular. Não estamos satisfeitos nem com os acordos e portanto não nos limitamos a criar representações para falar por nós. Estamos nós mesmos nos apropriando do espaço que já é público para falar do que deveria ser público: a política. Esta sim, a política, deve ser mais pública e menos institucional.

O APARTIDARISMO


Sempre vi com receio quando um ato pedia o apartidarismo. Isso porque acho que partidos são instrumentos de organização de um povo em torno de um projeto político e acho isso saudável e democrático. Eu mesma sou filiada ao Partido dos Trabalhadores e tenho muito orgulho em defender e trabalhar por um projeto como o nosso. Acho que como já disse, infelizmente o apartidarismo é um prato cheio pra direita. Esta sim, adora se esconder, fingir que não liga pra nada disso, mas sempre que pode, dá seu jeitinho de impor pautas que não estão alinhadas com os interesses do povo brasileiro. Pautas mesquinhas, que fomentam cada vez mais o individualismo. 


Me preocupa também que o apartidarismo vire um anti-partidarismo. Muitas de nós, filiados a um partido político, estamos do mesmo lado daqueles que agora lutam por mais justiça social, por isso, acho ruim que nos neguem mostrar que somos e agregar nossa luta à e todos os demais. No entanto, também entendo que a falta de credibilidade dos partidos começa na falta de credibilidade no sistema político brasileiro, e é aí que entro na questão que considero crucial: Reforma Política.

REFORMA POLÍTICA E A CRISE NA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA BRASILEIRA


Muitas são as reivindicações, muitos são os gritos e isso se deve ao problema de não-representatividade do povo brasileiro pela nossa classe política. Essas manifestações se tornaram muito maior do que nós imaginamos justamente porque agora não é mais apenas por R$0,20. As pessoas foram agregando suas próprias reivindicações porque não há quem as agregue nos espaços políticos institucionais. É justamente por isso que não devemos reduzir a manifestação aos espaços institucionais. Se o problema começa quando não conseguimos ser representados e desejamos que a democracia seja plena, acho que a pauta maior deva ser a REFORMA POLÍTICA. Ora, muitos manifestantes dizem que são “contra a corrupção”. E por acaso, há alguém a favor? É preciso discutir o que leva à corrupção. Não são as dívidas do financiamento de campanha? E a falta de transparência no poder público? O descaso com o dinheiro do contribuinte? Uma Reforma Política ampla, feita sob o olhar do povo, a meu ver, contempla todas as demais pautas elencadas nas manifestações por todo o Brasil.

AO PARTIDO DOS TRABALHADORES


Aos meus companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores, creio que mais do que nunca é preciso mostrar que sempre estivemos do lado certo, do lado do povo brasileiro. Devemos nos mostrar neste momento, dignos de nossa história, que levou o povo às ruas pela redemocratização, nas greves gerais, e em tantos outros momentos da história brasileira.


Somos um Partido de massas, o mais popular do Brasil, por isso não podemos achar que este é um movimento contra nós. É o povo que está lá, o mesmo povo que nos confiou por 3 vezes seguidas o governo deste país. Sabemos bem quem tem medo de povo e não somos nós. Até porque nós somos do povo, somos o povo. Não nos assustemos com o oportunismo da direita, porque um prato de macarronada é o máximo de massa que eles conhecem.


Também não é o momento de defender nada. Devemos entender que não se trata de levantarmos nossas bandeiras estreladas, mas reconhecer que o céu é o limite para quem ainda ousa sonhar. Vamos radicalizar nossos sonhos. Defender que nosso partido seja mais representativo com a Reforma Política. Somente com a Reforma Política é que poderemos colocar em prática nosso projeto, sem ficar refém da tal governabilidade.


Estes protestos são também uma conta a ser paga pelo PT por não disputar valores na sociedade. Por isso, disputar os rumos desse processo e do que virá depois dele, é nosso dever. Estamos ou não cansados de “ganhar, mas não levar”? Não avançamos muito em nosso projeto popular devido aos acordos, à política institucionalizada no seio do Partido e o esvaziamento dos movimentos sociais que tocávamos quando nossos quadros foram para a gestão. Vamos voltar pra base, honrar nossa história e mostrar que política se faz no cotidiano e colocar os trabalhadores e trabalhadoras desse país no poder!

CONCLUSÃO


As pessoas que aderiram em massa a este movimento não se sentem representadas, nem sequer ouvidas. A esquerda, por um ranço de arrogância e por se acostumar a discutir mais internamente que com o povo, se esqueceu de disputar valores na sociedade e muitas vezes tenta reduzir o atual processo a uma luta de classes que se existe, não está em divergência dentro das manifestações. A maioria reivindicações vão de encontro às bandeiras históricas da esquerda, portanto é um povo que deseja ampliar direitos e/ou ter acesso pleno aos direitos comuns.


Os manifestantes em sua maioria não acreditam no sistema político brasileiro e por isso não se posicionam partidariamente. Os jovens, filhos do neoliberalismo, mal conseguem distinguir o que é de esquerda e de direita e isso se deve à acomodação da esquerda e à institucionalização dos partidos, que pra jogar o jogo, se esqueceram de questionar algumas regras. 

Devemos portanto defender a mudança no sistema político brasileiro e definir os rumos da nossa sociedade cada vez mais para a esquerda, porque somente em um projeto socialista, democrático e de massas é que alcançaremos mais justiça social.

 

Luara Ramos é jornalista

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